É tempo de travessia…

E de repente começam as férias de novo…

Já vem aquele sentimento de medo, com vai passar, com é por pouco tempo, com daqui a pouco tudo volta ao normal….

Um mês antes dela chegar, fui chamada na escola… Matheus anda muito disperso, não consegue sentar na aula, e por consequência, não consegue “aprender’… achamos que está na hora dele voltar ao psiquiatra e quem sabe, tentar alguma medicação… Meu mundo caiu naquele dia… Ônus e Bônus da vida, não é?

Já passamos pelo risperidona, e foi uma experiência um tanto quanto desafiadora. De fato, ele passou a dormir, ele passou a ter contato visual, ele conseguia ver as coisas que aconteciam ao seu redor, mas com a medicação, veio também o peso. E foi por isso, que decidimos suspender. Era como se ele tivesse um descontrole tamanho, que precisava comer o dia inteiro.

Já estamos assim, há 3 anos. Seguindo sem medicação e tentando, na medida do possível, levar a vida “normal”. Sempre paro pra pensar nessa tal normalidade que todo mundo fala… quem, de fato, definiu o que é ser normal? Preciso conhecer essa criatura. Eu realmente preciso.

Uma semana antes do Natal, resolvi fazer um gosto da minha família e almoçar com ele em uma cantina. Ambiente novo, contato com pessoas que ele mal vê… E foi um desastre. Ele jogou o copo de suco no chão, várias cestas de pães voaram pelas mesas próximas, até que eu decidi ir embora, porque era sofrimento demais pra ele. De fato, alguma coisa naquele lugar, incomodou ele demais. Mas ainda não consegui entender o que era. E talvez nunca entenda. Esse dia, foi um start para a famosa travessia. É tempo de travessia.

Imaginei que as férias estavam desregulando ele, a ponto de prender novamente o intestino, a ponto dele fazer xixi onde quer que esteja, a ponto dele se morder. E muitas vezes, tentar descontar em mim sua frustração. Imaginei que fosse algo como aquela palavrinha mágica que move a vida deles: rotina. Mas eu tenho para mim, hoje, que é muito mais do que isso.

Como tudo nessa vida, nada é fixo. Nada é para sempre. Nada é imutável. É tempo da famosa travessia, e tempo esse que requer mais dedicação e atenção. Tempo de superar medos antigos, tempo de olhar para frente. Tempo de mudança.

Crescer dói. E lá vou eu, para mais um crescimento.

Na primeira semana das férias, conseguimos ir ao Aquário de SP, conseguimos almoçar num shopping, ele conseguiu ir comigo à loja do sem parar e esperar todo o processo de troca da tag. Não posso ser injusta com ele, ele é um baita companheiro. Ele, dentro de toda essa explosão de sentimentos que o autismo faz ele sentir, mostra pra mim que está tentando me acompanhar também. Ele me mostra que ama quando eu proporciono a ele novas experiências e que ele se sente importante com isso. Ele não faz idéia, mas ele é a minha melhor parte, o motivo pelo qual eu luto bravamente todo dia, pra trazer a ele conforto e uma vida gostosa.

Sim, o autismo traz pra nossa vida situações que jamais imaginei que eu deveria ter que passar e o pior, é exatamente nesse momento que ele espera que eu seja o apoio dele e assim, passe pela sua dificuldade. É muito importante dizer, que 90% das famílias com crianças diagnosticadas são “isoladas” do restante da família, pois todos têm o mesmo “comportamento” ao dizer que é difícil se relacionar com eles…

Já ouvi também que ele não gostava das pessoas, por não querer ficar perto… Dentro da minha cabeça, eu fico perplexa ao imaginar que alguma criatura na face da terra, possa imaginar que uma criança, que não consegue expressar seus sentimentos e que é não-verbal, possa não gostar de alguém! Ele não é o tipo de criança que gosta de colo, que gosta de abraços e beijos, que adora brincar com os carrinhos ou com os aviões. Ele gosta mesmo é do tablet dele, de estar perto de quem ele sabe que faz questão de estar com ele, de sentar do seu lado enquanto você assiste sua TV, de ficar perto de você na cozinha enquanto cozinha para ele comer, ele gosta de deitar do seu lado quando vai dormir. Ele gosta de andar no carro ouvindo, repetidamente eu confesso, a música que ele gosta. Ele gosta de que você sente com ele na mesa enquanto ele come. Mas, todas as formas de interação dele, são sempre dele para os outros. Pra mim, demonstrar pra ele que ele é importante. Querer estar perto dele, tentar que ele faça as coisas que fazemos no dia a dia, estimular ele a brincar com outras crianças, é amor! Como pode ser que alguém que não consiga ver isso?

Sim, eu sou ser humana. Não posso cobrar de ninguém nada do que não possam dar. É muito difícil o dia a dia com uma criança especial, então, há 6 anos eu venho relevando. MAS, cheguei no ponto de entender que o que não faz bem para os outros também não faz pra mim. E violar nossas regras de uma vida “o mais comum possível” é uma das coisas que eu não farei mais. Doa a quem doer. E que agora, vamos passar pela ponte de novo, para alcançar uma vista linda lá na frente.

Filho, espero que saiba que eu venho tentando fazer tudo o que eu entendo ser o melhor pra você. Quando, algum dia, conseguir ler esse post, saberá que mais uma vez tivemos que mudar os ventos da nossa vida para que você possa evoluir. Que tantas vezes quantas foram necessárias, eu vou mudar. Eu vou seguir em frente. Sempre por você. Sempre pensando que no futuro, não estarei aqui e preciso te preparar para quando eu faltar.

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